É assim que o mundo acaba

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Já lá vai o tempo em que recorria à escrita como forma de desabafo. Mas não tenho com quem falar.

Lembro-me de há alguns anos atrás ter lido “A Profecia Celestina”. Um dos conceitos interessantes que o livro explicava era como trocamos energia uns entre os outros e entre tudo o que nos rodeia. Também explicava como perdemos essa energia e que se não houver maneira de a repôr, se ficarmos sem essa energia, o que pode acontecer. Todos os nossos medos, inseguranças, doenças e até a postura física (o livro mencionava o exemplo de uma rapariga que andava sempre de cabeça baixa, com o qual me identifiquei bastante).

Isto para dizer que é assim que me sinto. Sem energia. Sempre achei que a vida, no geral, era uma batalha que travamos todos os dias. Sempre aquele suplício de sair da cama de manhã. E se há alturas onde o faço alegremente, há outras, como a de agora onde pura e simplesmente não me apetece. Sinto que tanto em casa, como no trabalho, as pessoas sugam de mim toda a energia que eu tenho. Tudo o que eu tenho de bom para dar, esgotou-se há alguns meses.

Antes de começar a escrever isto, estava a pesquisar no google “como esquecer uma paixão”. Sim, a minha vida é assim tão triste, que com 29 anos recentemente feitos, ando à procura de conselhos para a minha vida sentimental na internet. O pior é que tudo o que encontrei parece fazer sentido. Apaguei todas as “recordações” que tenho dela e não apaguei o número de telemóvel dela porque...pode dar jeito por questões de trabalho (pelo menos foi disso que me convenci). Quero ter uma boa relação com ela, mas, olhando imparcialmente para tudo isto, acho que ela gosta da minha atenção mas não quer mais do que isso. Eu consigo compreender alguém ter uma atitude irracional, ou dizer algo que sabe não fazer sentido, apenas para que lhe dêem atenção. E apesar de me magoar imenso que ela, sabendo o que sabe sobre mim, sabendo (ou pelo menos suspeitando) o que eu sinto por ela, de vez em quando corresponda. Quando me sente mais longe, vem à minha procura. Diz qualquer coisa que sabe que me deixa a pensar nela.

Fui (sou?) perito em afastar as pessoas, para ver se elas voltam. Portanto compreendo, compreendo mesmo. Mas será que ela me merece? Será que esta é a pessoa a quem eu quero entregar o meu amor? Isto não será injusto?

Por mais que escreva e pense sobre o assunto, isto não é algo fácil de curar. Não vai passar de um momento para o outro. Só de pensar na cara dela, no sorriso dela, nos gestos dela e no tom doce das palavras dela quando fala comigo, o meu coração acelera e eu fico sem saber o que fazer à minha vida.

Quando fiz anos, toda a gente me deu os parabéns. Pessoas de quem eu não estava à espera até. Pessoas com quem eu não falava desde o ano passado. Toda a gente.

Toda a gente menos ela. Para a ouvir, para ela me dizer algo, tive que telefonar para o trabalho dela, à procura de outra pessoa e calhar ser ela a atender-me. E realmente, aí deu-me os parabéns. Mas já era tarde de mais. Por essa altura já eu estava magoado e com razão. Não temos uma relação normal de colegas, somos mais que isso. Não digo que ela sinta algo por mim, mas há uma empatia entre nós que é inegável. Mas o que me custa a engolir é que essa empatia só parte de mim. E então, decidi ser eu a acabar com essa empatia. Tratá-la como outra pessoa qualquer que mal conheço.

E ela sentiu isso na pele, e não gostou. Ficou triste. E agora deixou-me arrependido do que fiz. E eu queria tanto conseguir esquecê-la, mas a única coisa que me lembro quando penso nela é quanto gostava de a ter nos meus braços, nem que fosse por uns minutos. A coisa mais bonita que tenho memória de ter escrito, foi escrita há uns meses, sobre ela, em pouco mais de 15 minutos. Não corrigi uma única linha, uma única palavra.

Parte de mim quer tratá-la mal, para que ela sinta na pele que me magoou, e para que se afaste de mim. Outra parte só quer abraçá-la, explicar-lhe porque é que o que ela fez me magoou tanto e porque é que ela é tão especial para mim. Mas, se ela não sabe já, então ficaria com a confirmação de que estou apaixonado por ela, e afastava-se. E se outro dia tentei convencer-me a mim próprio, durante uma conversa com alguém que sabe desta minha paixão, que era algo que devia fazer, a verdade é que só me ocorre essa ideia, porque tenho esperança que, mesmo que não seja com a mesma intensidade, ela também sinta algo por mim e esteja à espera que eu dê o primeiro passo.

E ao escrever estas palavras, uma voz dentro da minha cabeça, diz-me que eu estou a ser um idiota, que não a conheço assim tão bem, que ela tem namorado, tem defeitos e que este investimento de tempo e amor não vai levar a lado nenhum. E quando a vir, dentro de alguns dias, vou ter que fazer um esforço enorme para não me babar por ela.

Fiz 29 anos, mas sinto-me como o mesmo adolescente de 15 anos que acha que ninguém gosta dele e que vai ficar sozinho para sempre. Tinha prometido a mim mesmo, quando fiz 20 anos, que se chegasse aos 30 sozinho, acabava com a minha vida. E apesar de tudo o que já passou entretanto, continuo a ser o mesmo rapaz parvo, que sabe que deve fazer as coisas com a cabeça, mas continua a pensar com o coração. Dramático e desesperado pela atenção dos outros, consciente de que o que está neste momento a escrever são disparates e não servem para nada. Eu tenho amigos. Eu tenho pessoas que gostam de mim. Não sou tão feio que nunca vou arranjar ninguém. Mesmo não sendo atraente, é questão de esperar, porque a pessoa certa há-de aparecer. Dizia um dos meus melhores amigos e muito bem, “anda aí tanta gente enganada”. Não é a primeira vez que eu sinto isto por alguém, não há-de ser a última.

Porque é que não consigo convencer o meu coração do mesmo?

A vida é uma batalha que travamos todos os dias. Mas sinto as minhas forças para lutar a esgotarem. Afogo-me em trabalho, para não poder pensar em mais nada. Evito vir para casa e ter que falar com alguém. Evito ter que falar no trabalho. E começo a pensar que a minha vida não vai passar disto. Estou tão desesperado por ter alguém com quem possa falar que não paro para olhar para a pessoa antes de ficar completamente caidinho. E eu não sei gostar de outra forma, se não do fundo do coração. Não sei trabalhar de outra forma sem ser o primeiro a entrar e o último a sair (se é que alguma vez saio). Mas lá no fundo, não sei viver.

Não tenho coragem para acabar com a minha vida. Não tive das outras vezes em que pensei nisso, não é agora que a vou arranjar. E isto não é um pedido de atenção. Mas da maneira como me sinto hoje, acho que não vou precisar. Sei que um dia vou deitar-me tão cansado e tão massacrado com tudo o que sinto e deixo de sentir que inconscientemente vou desistir de viver. Talvez nessa altura, o meu coração e a minha cabeça estejam alinhados.